segunda-feira, 5 de novembro de 2007


Procura-se um Amigo
Vinicius de Moraes


Não precisa ser homem, basta ser humano
Basta ter sentimentos, basta ter coração
Precisa saber falar, saber calar, sobretudo ouvir
Tem que gostar de poesia, da madrugada, de pássaros,
do sol, da lua, do canto dos ventos, da canção da brisa

Deve amar o próximo e respeitar
a dor que todos os passantes levam consigo
Deve ter amor, um grande amor por alguém,
ou sentir falta de não ter esse amor
Deve guardar um segredo sem se sacrificar

Não é preciso que seja de primeira mão,
nem é imprescindível que seja de segunda mão
Pode já ter sido enganado, todos os amigos se enganam
Mas precisa que seja puro, nem que seja todo impuro,
mas não pode ser vulgar

Deve ter um ideal e medo de perdê-lo,
e no caso de assim não ser,
deve sentir o grande vácuo que isto deixa
Tem que ter ressonâncias humanas,
o principal defeito de ser amigo
Deve sentir pena de pessoas tristes e
compreender o imenso vazio dos solitários

Procura-se um amigo
para gostar dos mesmos gostares
Que se comova quando chamado de amigo
Que saiba conversar de coisas simples,
de orvalho e de grandes chuvas,
e de recordações da infância

Precisa-se de um amigo para não enlouquecer,
para contar o que se viu
de belo e triste durante o dia;
dos anseios e das realizações,
de sonhos e de realidade
Deve gostar de ruas desertas,
de poças de chuva e de se deitar no capim

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver,
não porque a vida é bela, mas, porque se tem um amigo

Precisa-se de um amigo para parar de chorar,
para não viver debruçado no passado
em busca de memórias queridas,
que nos bata no ombro sorrindo ou chorando,
mas, que nos chame de amigo

Precisa-se de um amigo que creia em "Nós" e "Nele"

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